19 novembro 2006

A Árvore da Vida

Lakshimi caminha entre as plantas exóticas que florescem apenas ao anoitecer. A elfa negra tem os cabelos longos e brilhantes, escuros como o céu sem lua soltos. Ela sorri para o viajante que ouve suas histórias ansiando por mais. A fumaça do incenso sobe em marolas azuladas adornando a clareira onde se encontram:
- Imagino que já tenha ouvido, ou talvez lido de um dos escritos de Aryan, sobre a chamada Árvore da Vida, Yggdrasil e como Odin se pendurou a ela. Pois bem...eu lhe contarei essa história novamente, com mais detalhes, para que compreenda por que Odin, além de ser o pai forte de todo o povo nórdico, é também protetor dos poetas e dos intelectuais.
Odin sempre gostou de passear por Midgard, a terra dos homens, geralmente se disfarçando em um senhor idoso. Ele retribuía as gentilezas com graças e punia atos de egoísmo. Seus corvos, Huginn e Munnin, voavam pelo mundo para lhe trazer notícia. O próprio Odin pode mudar sua forma para a de animais, mas seu corpo verdadeiro precisava descansar em um lugar seguro para que ele fizesse isso. Odin entretanto, nem sempre teve tantos poderes mágicos, para cada um de seus poderes e conquistas o Pai teve de pagar um preço.
A Yggdrasil é a árvore do mundo, tem uma de suas raízes em Niflheim, onde a serpente Nidhogg a morde, a segunda raiz está no reino divino de Asgard onde moram as norns: Destino, Ser e Necessidade, velhas que controlam o destino dos homens. Estas senhoras mantém Yggdrasil viva, regando sua raiz com a água pura da fonte do destino. A terceira raiz está em Jotunheim, a terra dos gigantes, e por baixo dela há uma fonte onde fica a cabeça cortada de Mimir. Odin entregou um de seus olhos para poder beber da percepção e conhecimento dessa fonte. Porém, para conseguir o segredo das runas, o Altíssimo passou nove noites pendurado na própria Yggdrasil, açoitado pelo vento e pela tempestade, vazado por uma lança, se oferecendo em sacrifício. Ao final de seu sacrifício, soltando um grito, Odin obteve as runas e caiu da árvore. Quando levantou-se, vencendo a própria morte, havia obtido muitos segredos escondidos: como curar os doentes, como cegar a espada de seus inimigos e como agarrar uma flecha em pleno vôo. Estas palavras mágicas então pertencem ao deus do conhecimento mais alto, detentor de grande sabedoria. Por isso Odin é não somente o deus dos guerreiros, mas dos historiadores e de todos aqueles que não medem esforços na busca pelo conhecimento.

Lakshimi sopra um estranho pó prateado na brasa que resta da pira, o que causa sonolência no viajante:

- Agora preciso ir. Nos encontraremos novamente se quiser...e lhe contarei mais sobre Odin e os outros deuses...

Talvez porquê os olhos do viajante pesem, ou por alguma magia desconhecida, o corpo de Lakshimi se desfaz como num devaneio. Entretanto a pira está lá e a fumaça ainda se dissipa lentamente, provando que as histórias que foram ouvidas não surgiram apenas da mente de um viajante cansado.
__________________________________
Para quem gostou do texto, vale ler "O Livro Ilustrado dos Mitos" de Neil Philip pela Editora Marco Zero, de onde adaptei este texto e em breve trarei mais histórias! =)
~Julia