Os Elfos da Água
Após ser deixado sozinho no jardim, Elan senta-se no banco sob o caramanchão ainda não muito seguro de que estava em plenas condições. Tentou distrair-se olhando o céu e as estrelas que começaram a aparecer, mas não pôde fazê-lo por muito tempo.
A sensação foi repentina, como da outra vez. Era como se um tacape de gigante tivesse pegado-o em cheio na nuca. Alexander deu um passo cambaleante para frente e logo após perdeu o domínio do corpo. Quando caiu de joelhos já não sentia mais nada, e assim que começou a despencar para frente a mente já tinha fugido para outro lugar.
Sentiu duas mãos delicadas segurarem as suas, e quando abriu os olhos não vi o Palacete, Galatea ou mesmo qualquer rosto conhecido do qual se lembrasse. Era uma garota de olhos oblíquos, cintilantes e azuis (ou verdes?), rosto pequeno e delicado, com ângulos harmoniosos, e lábios bem desenhados. Estranhamente, também tinham uma tonalidade verde-azulada. O rosto era adornado por cabelos longos e cacheados, decorados com pérolas e contas de coral polidos, que flutuavam no ar como se estivessem na água. O corpo era esbelto e levemente andrógino não carregava adornos, e os pés pareciam desproporcionalmente grandes e chatos, sem uma divisão nítida entre os dedos.
Ela sorria, e mexia a boca como se estivesse falando, mas Alexander não escutava som algum. Aliás, a única coisa que sentia nos ouvidos era uma forte pressão que, por pouco, não chegava a ser dolorosa. Afora isso, uma terrível dificuldade para respirar. Ela inclinou a cabeça para o lado e largou as mãos do garoto para colocá-las ao redor do rosto dele.
- Não tenha medo, menino da terra seca, enquanto estiver comigo, estará tudo bem.
Ela selou os lábios dele com os dela, e o desconforto passou de imediato, adquirindo a capacidade de respirar dentro da água como se estivesse fora dela.
Após se afastar, ela o fez olhar para o lado. O céu estava turvo mas brilhante, sem ser possível visualizar o sol, e não tardou a perceber que estava a algumas dezenas de metros abaixo da superfície d'água. Cardumes cintilantes nadavam, aparentemente a esmo, pelos arredores. A alguns vários metros abaixo, havia um canyon submarino, de proporções gigantescas. Não era possível ver o fundo e seus limites estavam fora do alcance da visão, mesmo de um dragão.
- Vamos - disse ela, parecendo muito menos pálida do que antes.
Todas as cores estavam mais vivas, inclusive o verde dos olhos e a coloração lilás dos lábios. A pele tinha uma tez morena, e os cabelos eram de um vermelho forte com mechas loiras. Alexander sentiu o braço sendo puxado e só então viu que a sua mão parecia muito menor do que ele se lembrava. Em pouco tempo estavam dentro do Canyon, e mesmo assim Elan não conseguia enxergar o fundo do mesmo. As paredes, contudo, não tinham um relevo natural em todas as partes. Em muitas regiões, as pedras estavam polidas e esculpidas em formações que pareciam entradas, janelas, belvederes e pequenas sacadas. Em diversos pontos, havia plantações de algas luminosas, cuidadosamente podadas, que davam uma atmosfera tranqüila ao local.
Seres semelhantes à garota que o guiava nadavam de um lado para outro. Eles também possuíam cores vivas e brilhantes nos cabelos e olhos, e usavam poucos adornos, a maioria pérolas, conchas e fragmentos polidos de corais.
Olhando mais de perto, aqueles seres eram definitivamente elfos. Tinham traços finos, delicados e belos como os seus primos da terra que Elan conhecia, pois era essa a forma que seu pai e algumas das irmãs assumiam na forma humanóide. Enquanto era puxado por aquela que vira em primeiro lugar, escutava palavras cujos sons eram estranhos, mas que por alguma razão conseguia captar o sentido.
- Então você salvou ele de um Kraken?
- É um dos primos da terra?
- Nunca tinha visto um. Vai devolvê-lo?
- Sim, assim que eu cuidar dos ferimentos dele - disse a garota que o segurava firmemente pelo braço. - E não é um dos primos da terra, é um dragão... um filhote.
Um elfo d'água maior e claramente mais musculoso, com cabelos castanhos, se aproximou, com o semblante sério. Nas costas, havia algo semelhante a uma lança comprida, em vários tons de vermelho, esculpida em coral, talvez. Estava preso ao torso através de longas cordoalhas feitas de fibra vegetal. No mesmo instante, os demais se afastaram e voltaram a seus afazeres.
- Há uma movimentação forte deles na superfície, pelo menos uns seis... acho que você precisa devolvê-lo logo, Mnemone, antes que a ira deles caia sobre nós.
- Do que tem medo? Eles não conseguiriam chegar aqui, tão no fundo...
- Apenas devolva-o agora... devem ser os pais e família desta criança, e devem estar angustiados. Não se preocupe com os ferimentos, eles saberão o que fazer.
Mnemone, claramente a contragosto, abraçou-o, e sussurrou:
- Adeus, garotinho, durma e esqueça, estará com seus pais logo.
Elan abriu os olhos, subitamente, e novamente estava no jardim de Galatea. Apesar de ter caído do banco, não estava de cara no chão: os apêndices metálicos de Althea haviam sido mais rápidos, e seguraram-no, enroscando o tórax do rapaz. Estava sentado sobre as pernas, e todo o corpo estava dormente. Começou abrindo e fechando a mão, e logo sentiu a circulação voltar a funcionar. "Obrigado, Althea", pensou, referindo-se à espada. Levantou-se devagar e sentou-se sobre o banco, dando tapas leves nos joelhos para tirar a terra. Fez a espada flutuar até a sua frente, e apoiou as mãos e o queixo sobre o cabo da mesma, fechando os olhos logo a seguir.
Não fazia a mínima idéia do que tinha visto, e prometeu a si mesmo que da próxima vez que tomasse um chá de Galatea, o faria em pequenos goles.
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Eis uma descrição breve do habitat e aparência dos elfos d'água, os mais belos entre os elfos, que nunca mais foram vistos depois do dia da criação. o/


2 Comments:
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
qui. mar. 08, 09:16:00 PM
Muito legal! Gostei muito de como você colocou esses elfos! =D
qui. mar. 08, 09:17:00 PM
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